O liberalismo radical e o pós-modernismo são duas tendências políticas que, ainda que possam ser bem-intencionadas, têm consequências danosas para a sociedade.
O liberalismo radical considera que cada indivíduo é absolutamente livre, responsável por tudo aquilo que é. Não há nenhuma influência social ou exterior que torna o indivíduo naquilo que é, cada um é uma auto-construção. Sendo esta a diferença específica e característica essencial do Homem, a liberdade é um bem intrínseco e, por isso, ninguém deve ter a vida comandada por ninguém; toda a intervenção na vida privada é errada, o homem, sendo naturalmente livre, assim deve permanecer, fazendo o que desejar sem haver regras. Um olhar mais desatento diria que tudo isto é inocente, mas a verdade é que esta perspectiva tem consequências, como veremos à frente.
O pós-modernismo é uma tendência filosófica que considera que os valores e a linguagem são meras convenções sociais, por esse motivo todas as perspectivas são igualmente válidas. A título de exemplo, a concepção de bem de um terrorista ou de um cristão são igualmente válidas, porque são concepções formadas socialmente.
Estas duas perspectivas aparentemente opostas tocam-se num ponto: ambas são contra regras, ambas rejeitam a objectividade moral.
No seio de uma sociedade liberal radical, todos os estilos de vida são aceites, na medida em que a liberdade é o valor mais importante de todos, sobrepondo-se a qualquer coisa. Assim, um casal tem o direito de educar os filhos para ser terroristas. A liberdade é mais importante do que a segurança das outras pessoas. O problema do liberalismo é que procura de tal modo valorizar a liberdade que permite que surjam valores absolutamente imorais. A pedofilia seria permitida numa sociedade deste género, por duas ordens de razões: a) as crianças seriam, deste ponto de vista, capazes de decidir por si, e b) caso não fossem, os pais têm a liberdade de achar que isso é o melhor para os filhos.
Os pós-modernos, que são normalmente os mais moralistas, consideram que não podemos criticar, rejeitar, etc. estilos de vida diferentes, todos são válidos. Desta maneira, um terrorista, um fascista, um marxista, um nazi, todos têm legitimidade para ter as ideias que têm porque a sua validade é meramente social e não há outro tipo de validação.
Assim, ambas as tendências acabam por cair num relativismo extremo e numa ausência de valores, acabando ambos os sistemas por criar dentro de si maneiras de viver que não são aceitáveis.
Claro que os pais têm toda a legitimidade para educar os filhos a serem terroristas. Assim os fizeram os filhos dos patriotas americanos, que se insurgiam contra os ingleses. Assim o fazem os palestinianos. Terrorismo é uma palavra que vai ganhando sentido conforme o sentido da história e conforme a justiça, que é sempre ditada pelos vencedores.
“Os pós-modernos, que são normalmente os mais moralistas, consideram que não podemos criticar, rejeitar, etc. estilos de vida diferentes, todos são válidos. Desta maneira, um terrorista, um fascista, um marxista, um nazi, todos têm legitimidade para ter as ideias que têm porque a sua validade é meramente social e não há outro tipo de validação. ”
Straw man
Para já isso dos pós-modernos é algo ambíguo…
Depois, mesmo pensando nalguns dos ditos “pós-modernos”, eu consigo pensar nalguns que acham se se pode criticar mas não rejeitar estilos de vida diferentes, e noutros que acham que não se pode criticar mas sim apenas rejeitar outros estilos de vida. Ainda há aqueles que acham que se pode criticar e mesmo rejeitar pessoas com estilos de vida diferentes. Esses são os liberais mais coerentes, pois defendem o direito à diferença e, consequentemente, o direito à discriminação (ex: bairros fechados com muralhas, com polícias privados nas portas do bairro, para impedir a entrada de ciganos).
“Assim, ambas as tendências acabam por cair num relativismo extremo e numa ausência de valores”
Eu acho que há uma diferença entre “eu dizer que o verde é mais feio que azul e deixar outros achar o contrário” e “eu dizer que todos devem preferir o verde ao azul e que comprar t-shirts verdes em vez de azuis deve ser proíbido”.
“Estas duas perspectivas aparentemente opostas tocam-se num ponto: ambas são contra regras”
É teimosia ou é falta de capacidade para ler aqueles que pretendes criticar? Não conheço UM “liberal radical” que seja contra regras. UM. Claro que são contra regras impostas, mas isso é mesmo uma chatice. Insurgir-se contra regras ditadas por ditadores, proto-ditadores ou aspirantes a…
Obrigado pelos comentários Filipe. Volte quando tiver alguma coisa relevante para dizer.
Bom post Luís.
O Liberalismo radical, talvez o clássico já foi de certa forma apreciado pela História, pelos radicalismos da revolução industrial, pela ideia de individualismo que não permitia que qualquer instituição ( fosse ela qual fosse) tocasse, interferisse na liberdade individual.
Então por exemplo as associações não poderiam ser aceites, e não o foram, porque deturpava o cidadão, o individuo que pensava unicamente por si.
Confesso que não sou um grande fã do liberalismo, muito de Marx surge após aquilo a se assistismos pelo Liberalismo, e pela total ausência de valores morais e sociais, norteados unica exclusivamente por uma ideia de liberdade que para mim é inaceitável.
um abraço
“Confesso que não sou um grande fã do liberalismo, muito de Marx surge após aquilo a se assistismos pelo Liberalismo, e pela total ausência de valores morais e sociais, norteados unica exclusivamente por uma ideia de liberdade que para mim é inaceitável.”
Liberalismo não implica ausência de valores naturais que podem ou não coincider com os chamados valores “morais e sociais”, aliàs nem sequer tem sentido porque uma das regras básicas do liberalismo clássico (penso que é aquele a que chama radical) é que um indivíduo não interfira com a liberdade de outro, eu não conheço nenhum tipo de liberalismo que defenda a ausência de príncipios básicos. A própria expressão “liberalismo radical” é ela mesmo infeliz e denota falta de estudo acerca do que são formas de expressão liberais.
Agradecer comentários irrelevantes é sempre algo digno de registo.
“Então por exemplo as associações não poderiam ser aceites, e não o foram, porque deturpava o cidadão, o individuo que pensava unicamente por si.”
Ao Eduardo, tal como ao autor do post, falta-lhe ler uns livrinhos sobre aquilo que desconhece. O associativismo é precisamente aquilo que fundou o liberalismo “teórico” desde os seus primórdios: face ao poder dos soberanos, era pela livre associação (guildas, sindicatos livres, grémios, segurança privada, etc) que a liberdade começava a sua mais pura expressão. Mas, claro, o rigor é sempre uma profunda chatice quando se constroem homens de palha para melhor descarregar as frustrações. Patético.
Filipe, estávamos a falar de Direitos Fundamentais, neste caso do livre associativismo, portanto, relativamente a Direitos Fundamentais:
“O liberalismo pressupõe o indivíduo como ponto de partida. Por isso, explica contratualmente a sociedade e o Estado. Por isso, estabelece o processo e as condições de formação das leis no pressuposto antropológico da opinião própria.
Assim como a economia era vista numa perspectiva microeconómica, também a vida politica era concebida numa visão micro-política.
Mas o mercado político, tal como o económico, exige uma certa racionalidade, tendente ao óptimo, e postula, para esse sim, um conjunto de condições.
Exige-se em primeiro lugar, o atomismo e a mobilidade dos intervenientes, não se admitindo solidariedades particulares ou arranjos moleculares de interesses parciais que prejudiquem a independência dos agentes e a sua exclusiva vinculação às exigências da Razão e do interesse geral, isto é, que ponham obstáculos à providência da “mão invisível”. Daí que fossem proibidos os grupos e todas as associações parciais, consideradas como formas de sedição, pois promoviam interesses egoísticos e mesquinhos, opressores da verdadeira liberdade ( em 1799-1800 pelos Combination Acts em Inglaterra; em França a Loi Le Chapelier (1791) proibiram congregações religiosas, corporações de mesteres e associações operárias – Cf Rogério Soares in Direito Publico 1969, acerca da construção politica liberal; “
José Carlos Vieira de Andrade, professor da Faculdade de Direito de Coimbra, “Curso de Direitos Fundamentais” Almedina 2001, pág, 50 e ss…
Continuando do mesmo autor:
“Reservava-se o direito de voto e o de ser eleito aos proprietários, a uma nova aristocracia, absolvida de interesses, rica porque diligente ou abençoada (beati possidentes” que constituía a “nação activa”.
A propriedade tornava-se, assim mais do que o conteúdo de um direito fundamental era uma condição objectiva e uma garantia de liberdade – constituindo e distribuindo o poder de escolha (de compra) – e. simultaneamente, e felicidade – permitindo o equilíbrio óptimo das preferências sob o signo da verdade racional da lei, no “melhor dos mundos possíveis” (Cf Rogério Soares Martin Kriele in Offentliches Recht und Politik, 1973, p. 204 e ss).”
Já que aqui falamos de liberalismo, teoria economica, do Estado etc, e o Filipe humildemente mostrou-se pouco informado no assunto, acrescente à lista daqueles autores que nunca ouviu falar, mais um autor, de Coimbra, no manual em Portugal de referência da Teoria do Estado, da Constituição, Direito Constitucional: Gomes Canotilho.
Pág. 155 e ss; lá encontrará as referencias bibliográficas! e investigue também aqueles dois casos, em França e em Inglaterra, encontrará facilmente essas duas leis que vão de acordo aos seus “sindicatos livres”
Já agora esse mesmo autor Carlos fala do Liberalismo Radical…
Posso não ser catedrático, mas realmente uma “solidariedade particular” que possa “prejudicar a independência dos [respectivos] agentes” é uma ideia sem qualquer sentido. Ou bem que é particular, e por isso voluntária, ou bem que é imposta por uma ideia de “interesse geral” decidida por entidades não-particulares (isto é, “públicas”). Se é particular e voluntária, não vejo como se possa entender que vai contra a independência dos agentes. Independentemente, esses agentes decidiram pela dita “solidariedade particular” (associação de qualquer tipo).
E já agora, esse excerto fala do liberalismo pós-Rev. Francesa. Isso tem alguma coisa a ver com o “liberalismo radical”? Por amor de deus. Um dos maiores críticos da Rev. Francesa é ao mesmo tempo um dos modelos para os mais consistentes “liberais radicais” do séc. XX: Edmund Burke.
“acrescente à lista daqueles autores que nunca ouviu falar, mais um autor, de Coimbra, no manual em Portugal de referência da Teoria do Estado, da Constituição, Direito Constitucional: Gomes Canotilho.”
O Eduardo não sabe ler? Eu disse que nenhum “liberal radical” dizia aquilo que o autor do post atribui como ideias dos “liberais radicais”. Você aponta-me livros do Gomes Canotilho (que, analogicamente, é um Luis Rodrigues-like no debate, pois é um não-liberal a falar do liberalismo)? As citações do livro dele referem-se a que autores liberais, já agora? Pode dizer? E pode transcrever as citações também?
Faça-me o favor e diga que autor “liberal radical” defende que não devem existir regras.
“Exige-se em primeiro lugar, o atomismo e a mobilidade dos intervenientes, não se admitindo solidariedades particulares ou arranjos moleculares de interesses parciais que prejudiquem a independência dos agentes e a sua exclusiva vinculação às exigências da Razão e do interesse geral, isto é, que ponham obstáculos à providência da “mão invisível”. Daí que fossem proibidos os grupos e todas as associações parciais, consideradas como formas de sedição, pois promoviam interesses egoísticos e mesquinhos, opressores da verdadeira liberdade ( em 1799-1800 pelos Combination Acts em Inglaterra; em França a Loi Le Chapelier (1791) proibiram congregações religiosas, corporações de mesteres e associações operárias”
Non-sense. Qualquer pessoa que tenha perdido algum tempo a ler obras ou textos de alguns liberais como Thomas Jefferson, John Stuart Mill ou John Locke ou qualquer outro percebe que não há formas de liberalismo que critiquem a livre associação de grupos, é exactamente o oposto. É mais provável que seja uma sociedade socialista que impeça a criação de certos grupos movida por moralismos e “direitos sociais”.
“José Carlos Vieira de Andrade, professor da Faculdade de Direito de Coimbra, “Curso de Direitos Fundamentais” Almedina 2001, pág, 50 e ss…”
Pois, talvez devesse ler os princípios e fundamentos do “liberalismo radical” em autores liberais e depois criticar.
Fico absolutamente chocado com o que aqui vejo, isto sim é patético.
Eu no primeiro comment limitei-me a expôr factos: as duas leis que falei (francesa e inglesa), a proibição do associatismo pois tal deturpava a ideia da individualidade.
Como é habito aqui a conversa vai para outros lados. O Filipe refutou dizendo k tal era MENTIRA pk foi o associativo que fundou o Liberalismo e aquelas banalidades todas.
Não vi aqui ninguem falar directamente dos dois exemplos que vi.
O filipe pediu-me autores, eu dei-lhe 2 portugueses que estudam a Teoria do Estado e a Ciencia Politica (Rogério Soares e Gomes Canotilho), os Direitos Fundamentais (Vieira de Andrade), agora podemos é hipotizar e dizer que é tudo mentira!!
“O não liberal a falar do Liberalismo?”
“Pois, talvez devesse ler os princípios e fundamentos do “liberalismo radical” em autores liberais e depois criticar.”
ok, então só podemos estudar realmente alguma teoria de um autor que seja defensor dela?
Carlos, pergunto-lhe também foram as “Combination Acts”. Estou a falar do Liberalismo clássico, aquele que agora já não chama de classico mas de Radical quando no seu primeiro comment falou de “liberalismo classico (penso que é aquele que chama a radical”
Obviamente que aquilo que é dito pelos catedráticos é uma pérfida caricatura quer do “liberalismo radical”, quer do liberalismo clássico ou até mesmo do “liberalismo jacobino” da RevFr.
Você engana os leitores. Isso sim é chocante, tanta desonestidade. Cite os autores liberais que dizem as parvoíces que lhes foram atribuídas. Cite. Ou cale-se para sempre. Pode sempre retractar-se quanto ao que aos “liberais radicais” imputou, ficar-lhe-à menos mal do que andar a aldrabar.
Se eu afirmar que Marx defendia o uso da guilhotina para castigar os monarcas, tenho, muito mais do que citar quem diga isso, citar passagens de Marx (ou, quanto muito, de amigos contemporâneos de Marx) onde isso seja defendido. Se não o fizer e mantiver a minha afirmação, sou um aldrabão.
Radical é um termo usado no texto com conotação imprecisa. Eu penso, pelo que já li do autor do post, que ele se refere ao liberalismo moderno (de tipo “austríaco”, ou utilitarista – David Friedman e outros). Este liberalismo, sobretudo o “austríaco” é descendente directo do liberalismo clássico. Este último é, embora de famílias próximas, bastante distinto do liberalismo jacobino (aquele retractado, mesmo que em termos muito caricaturais, nos excertos acima apresentados pelo Eduardo).
Nomes do liberalismo clássico: escolásticos, Say, Hume, Locke, Montesquieu, Franklin, Jefferson, Smith. Nenhum destes autores, pela certa isto ->
“não se admitindo solidariedades particulares ou arranjos moleculares de interesses parciais que prejudiquem a independência dos agentes e a sua exclusiva vinculação às exigências da Razão e do interesse geral, isto é, que ponham obstáculos à providência da “mão invisível”. Daí que fossem proibidos os grupos e todas as associações parciais, consideradas como formas de sedição, pois promoviam interesses egoísticos e mesquinhos, opressores da verdadeira liberdade ( em 1799-1800 pelos Combination Acts em Inglaterra; em França a Loi Le Chapelier (1791) proibiram congregações religiosas, corporações de mesteres e associações operárias – Cf Rogério Soares in Direito Publico 1969, acerca da construção politica liberal”
Todas as medidas supra-citadas foram tomadas por governos, em regimes mais próximos do jacobinismo do que do liberalismo clássico. Em todo o caso, nas medidas citadas não se proibiram tout court as associações, mas sim certos tipos bem concretos de associações (sindicatos, religiosas, etc). E mesmo que fossem governos liberais a tomar estas medidas concretas, a prova do pouco apego ao associativismo teria de se fazer assim: provar que os entraves à formação de associações foi maior em regimes ditos liberais do que em regimes declaradamente socialistas, fascistas ou corporativistas.
De qualquer forma, nem a França, nem a Inglaterra setecentistas ou oitocentistas foram regimes liberais. Um era jacobino, outro era claramente de tendência mercantilista (anti-liberal). E de qualquer forma ainda, para se dizer o que quer que seja sobre o liberalismo é necessário citar os seus autores e não citações sobre regimes que, mal ou bem, foram/são tidos como liberais.
errata:
Nomes do liberalismo clássico: escolásticos, Say, Hume, Locke, Montesquieu, Franklin, Jefferson, Smith. Nenhum destes autores, pela certa, DISSE isto ->
fala um pouco sobre liberalismo terrorismo! não estou achando nada sobre o assunto
eu nao achei bom isso pra mim e bobagem